A FINA PELÍCULA DE FALSA REALIDADE

A fina película de falsa realidade

Imagine-se em uma sala de cinema. O filme passa na tela e você, sentado ali no escuro, se emociona, chora, ri. Envolvido, se esquece completamente da sua vida lá fora. Esquece os problemas, as contas a pagar, o trabalho, a família. Durante toda a projeção, é como se a vida exterior não existisse.

Agora, imagine que, de repente, a luz da sala seja acesa no meio do filme. Você se vê ali com todas aquelas pessoas e percebe que estava completamente envolvido pelas cenas da tela. Você se dá conta de que é “só um filme”, de que não é “real”.

Este exemplo do cinema é uma bela ilustração do que é a vida de todos nós. Estamos separados da nossa realidade, envolvidos por uma falsa realidade. É preciso ligar a luz!

Mas como podemos fazê-lo? Para isso é preciso entender melhor a falsa realidade na qual estamos imersos. Na primeira página do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, Ouspensky escreve: “Mas, onde começava esse caminho novo ou perdido eu era incapaz de dizer. Já reconhecera então, como fato inegável, que, para além da fina película de falsa realidade, existia outra realidade de que, por alguma razão, algo nos separava. O ‘milagroso’ era a penetração nessa realidade desconhecida.”1

Vivemos angustiados com todos os problemas que enfrentamos na vida. O fluxo de nossos pensamentos, emoções e desejos torna este mundo real. Mas, em certos momentos, somos tocados por uma sensação estranha de maravilhamento. Um belo pôr do sol! Uma noite de lua nova com um céu coberto de estrelas! Uma música que nos toca profundamente!

Nesses momentos algo de milagroso acontece e somos transportados para um outro mundo. Eles se contrapõem ao nosso cotidiano agitado e, no íntimo, suspeitamos que algo está errado. Não sabemos o quê, nem como resolvê-lo, mas pré-sentimos que “as coisas poderiam ser diferentes”, que vivemos em uma fina película de falsa realidade.

Mas como ela se forma? No livro Do Todo e de Tudo,afirma-se que foi implantado,a título provisório nos seres humanos, um certo órgão que tem propriedades tais que eles perceberiam, dali em diante, a realidade ‘às avessas’, e que toda impressão repetida, de origem exterior, cristalizaria neles os dados necessários ao aparecimento de certos fatores que provocam as sensações de ‘gozo’ e de ‘satisfação’.” 2

A primeira função do “órgão Kundabuffer” é desconectar o ser humano da realidade, ou seja, fazer com que ele veja tudo às avessas. Confundir o que ouvimos. Levar-nos a tomar tudo como pessoal, a agir sem pensar, a não analisar as situações que vivemos, etc.

Mas só isso não seria suficiente! Ainda poderíamos, mesmo “cegos” e por acidente, conectar-nos com o Milagroso. Daí a necessidade da segunda função, ou seja, desviar nossa energia para ser utilizada em outras coisas, gerando gozo e satisfação, como, por exemplo: nosso falar interno incessante, nosso devaneio, as explosões de emoções negativas e os desejos que são senhores de nossa vida.

Talvez nem percebamos, mas sentimos muito prazer em momentos como os de raiva. Até mesmo o stress, tão na moda hoje em dia, é, na verdade, um estado de grande excitamento para todos nós. Adoramos assistir a esse filme, mesmo sem o sabermos.

E como entender de modo mais claro o funcionamento do Kundabuffer? Gurdjieff explica: “A tendência ao devaneio deve-se, por um lado, à preguiça do centro intelectual, isto é, a suas tentativas de se poupar todos os esforços ligados a um trabalho orientado para uma meta definida e indo numa direção definida e, por outro lado, à tendência dos centros emocional e motor a se repetirem, a guardar vivas ou a reproduzir experiências agradáveis ou desagradáveis, já vividas ou ‘imaginadas’.” 3

Suponhamos que aconteça algo e eu seja tomado por uma raiva muito forte. Minha adrenalina dispara. Até aí, tudo bem! É preciso ter a energia necessária para agir rapidamente. Durante um curto espaço de tempo eu ainda tenho a “mão no jogo”. Ainda posso ter um pensamento lúcido impedindo que a raiva conduza toda a minha ação. É nesse exato instante que falta a presença de uma mente tranqüila e silenciosa. Nesse momento seria necessária a intervenção da minha cabeça para eu tomar atitudes mais centradas. Mas isso não acontece. Tudo desmorona e ajo como uma fera acuada.

Ou seja, nosso corpo capta sensações físicas que são naturais e necessárias. Mas nossa cabeça é preguiçosa e vive em um constante estado de devaneio. O que era para ser uma simples necessidade ou desejo de agir transforma-se muitas vezes em atitudes e emoções violentas de nossa parte. O filme está pronto! Quem o projeta é a cabeça, mas são as emoções e os desejos os responsáveis por sua produção. 

O que podemos fazer para impedir esse fluxo incessante? A mitologia pode nos ajudar. Os antigos, para falar da fina película, utilizaram muitas vezes o tema das muralhas em seus mitos e histórias. Na mitologia grega temos a Guerra de Tróia. A bela Helena é seqüestrada e inicia-se o cerco a Tróia. Helena simboliza a nossa Alma que foi seqüestrada. Gurdjieff sugere uma relação entre o Kundabuffer e as muralhas de Jericó, utilizando um dito do sábio Mulá Nassr Eddin:ao pleno som das trombetas de Jericó”. 4 A menção a Jericó não é um acaso, mas uma pista deixada por Gurdjieff: as fortes muralhas dessa cidade, que impediam o acesso à “Terra Prometida”, são a fina película de falsa realidade. É ela que nos separa do Milagroso, do “Reino dos Céus”, da “Atlântida submersa”, da nossa Alma.

Surge então a pergunta: por que essa fina película de falsa realidade é simbolizada por inexpugnáveis muralhas? Mais uma vez aqui se revela a grande sabedoria dos antigos. O que é apenas um véu de seda transparente transforma-se em complicações de todo tipo para quem está afastado e esquecido da busca do Milagroso. O que é uma fina película para quem está em conexão com o Milagroso é uma muralha impenetrável para todos nós.

Como podemos derrubar essas muralhas? Como acender a luz? A grande dica é revelada nos mitos de Tróia e de Jericó. Tanto o cavalo de Tróia como as trombetas de Jericó apontam como podemos viver o Milagroso. As trombetas emitem sons, que são vibrações utilizadas para nos despertar e encontrarmos nossa Alma. Trombeta está ligada à respiração e, logo, ao sentimento. O cavalo simboliza o trabalho sobre as emoções, sutilizando-as. A ligação entre os dois símbolos (trombeta e cavalo) é o sentimento. O verdadeiro e fino sentimento é atributo da Alma. Temos de trilhar o caminho do coração e despertar para nossa Alma.

Mas, antes, é preciso exercitar nossa mente para que ela esteja presente sempre, pois o “trabalho sobre si deve começar pelo intelecto” 5. Só assim, sem ser arrastados pelos nossos desejos e emoções, é que podemos resgatar Helena, a Bela.

1  P. D. Ouspensky, Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido.
Editora Pensamento, pág. 17.
2  G. I. Gurdjieff, Do Todo e de Tudo. Horus Editora, pág. 97.
3  P. D. Ouspensky, Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido. Editora Pensamento, pág. 134.
4  G. I. Gurdjieff, no livro Do Todo e de Tudo. Horus Editora,
pág. 98.
5  P. D. Ouspensky, Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido. Editora Pensamento, pág. 114.

 

 Marte e Vênus, de Botticelli. Nos mostra este exemplo:
As trombetas tocam na tentativa de nos despertar
para o Milagroso. Vênus, nossa Alma, aguarda
carinhosamente que acordemos do sonho em que vivemos.

meu amor, beijos no seu lindo coração Fran

 

 
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